Desde janeiro de 2026, excursionistas podem voltar a percorrer de forma autoguiada o Circuito O, ou Maciço Paine, uma das rotas mais completas e desafiadoras da Patagônia, agora sob um protocolo de segurança renovado, baseado em critérios científicos e sistemas de alerta precoce.

No Parque Nacional Torres del Paine, um dos destinos de trekking mais emblemáticos do mundo, foi oficialmente retomada a possibilidade de realizar trekking autoguiado no Circuito Macizo Paine, também conhecido como Circuito O, uma medida aguardada há muito tempo por excursionistas nacionais e estrangeiros.

A decisão da Corporação Nacional Florestal (CONAF) põe fim a um período transitório em que era obrigatório percorrer essa rota com guia turístico credenciado, exigência que se manteve enquanto era desenvolvida uma atualização integral do Protocolo de Operação de Trilhas de Montanha. O objetivo: reforçar a segurança em alta montanha sem afetar a experiência de quem busca uma conexão direta com a natureza patagônica.

Um circuito que contorna o coração do maciço Paine

O Circuito O, que inclui o reconhecido Circuito W, é considerado a experiência mais completa dentro do parque. O percurso começa no Centro de Visitantes da Reserva Cerro Paine, de onde a trilha avança em direção ao norte até o setor Serón, primeira aproximação às paisagens abertas da estepe patagônica.

Ao contornar o maciço Paine por sua face norte, o itinerário entra em áreas de menor afluência turística e maior isolamento, chegando ao lago Dickson e ao imponente glaciar Dickson, um dos cenários mais remotos do parque. Mais adiante, a trilha conduz ao passo John Gardner, o ponto mais alto do circuito, com 1.241 metros de altitude, de onde se obtém uma vista privilegiada do Campo de Gelo Patagônico Sul.

Este trecho, um dos mais exigentes, destaca-se por suas impressionantes pontes suspensas, que cruzam profundos canais glaciais e oferecem panoramas únicos de montanhas e línguas de gelo. Após a descida, o caminho finalmente se conecta ao Circuito W no mirante Grey, integrando ambos os percursos em uma experiência contínua.

Percorrer o Circuito Macizo Paine permite acessar lugares que não são visíveis a partir de outras trilhas do parque. Entre eles destacam-se o glaciar Los Perros, o lago Los Perros e amplas vistas do campo de gelo patagônico sul, um dos sistemas glaciais mais extensos do planeta.

Nesse ambiente, o visitante pode observar diretamente algumas das montanhas, campos de gelo e línguas glaciais que conformam esse território extremo, consolidando o Circuito O como uma rota privilegiada para quem busca uma experiência de trekking de longa distância, imersiva e menos impactada.

Ciência, prevenção e coordenação

O retorno do trekking autoguiado não implica uma flexibilização das normas, mas exatamente o contrário. A CONAF implementou um novo protocolo de montanha que incorpora padrões técnicos avançados para a gestão de riscos em trilhas de alta exigência.

Um dos principais avanços é a implementação de um Sistema de Alerta Precoce, desenvolvido em coordenação com o Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (SENAPRED) e a Direção Meteorológica do Chile (DMC). Esse sistema define limiares científicos para variáveis climáticas críticas, como vento, precipitações e temperatura, permitindo a tomada de decisões objetivas quanto a fechamentos preventivos de trilhas.

O protocolo também formaliza uma coordenação institucional reforçada, integrando informações meteorológicas especializadas diretamente à operação diária do parque. Essa articulação possibilita antecipar episódios de clima adverso, reduzir riscos para visitantes e equipes, e minimizar o impacto sobre a atividade turística por meio de uma comunicação clara, oportuna e baseada em evidências científicas.

Dessa forma, a avaliação das condições deixa de depender apenas de observações pontuais, passando a basear-se em um sistema dinâmico que se ajusta ao comportamento real do clima patagônico, conhecido por sua variabilidade e extremos.

Para a CONAF, o retorno do trekking autoguiado representa um equilíbrio entre a autonomia do excursionista e a responsabilidade compartilhada na proteção do ambiente natural. A instituição reforçou que o senderismo em alta montanha envolve riscos inerentes, razão pela qual cada visitante deve cumprir rigorosamente os requisitos de registro, reservas, equipamento adequado e a normativa vigente.

O acesso ao Circuito Macizo Paine, assim como às demais trilhas do Parque Nacional Torres del Paine, estará sempre condicionado ao cumprimento do novo protocolo, às condições meteorológicas do momento e à avaliação permanente dos guarda-parques em campo.

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Viva a experiência